Saúde

Estudo liga atraso no amadurecimento de conexões cerebrais a pior desempenho cognitivo e maior risco psiquiátrico
Pesquisa com quase 10 mil jovens mostra que desvios no desenvolvimento de tratos de substância branca, sobretudo nas vias dorsais de associação, antecipam desempenho escolar e risco de transtornos mentais
Por Laercio Damasceno - 19/02/2026


Domínio público


Um amplo estudo internacional publicado nesta quinta-feira (19), na revista Nature Communications, identificou que desvios no desenvolvimento de conexões cerebrais durante a pré-adolescência estão associados, simultaneamente, ao desempenho cognitivo e ao risco de transtornos psiquiátricos — tanto no presente quanto nos anos seguintes.

O estudo, liderado por pesquisadores do National Institute on Drug Abuse, parte do National Institutes of Health, analisou dados de cerca de 10 mil crianças e adolescentes de três grandes coortes internacionais. A conclusão central: um “atraso” na maturação de tratos dorsais de associação — feixes de substância branca que conectam regiões corticais de alto nível — prediz pior desempenho cognitivo e maior probabilidade de diagnósticos psiquiátricos ao longo de dois anos.

“Mostramos que a variação individual no desenvolvimento da substância branca, especialmente nos tratos de associação dorsais, não é apenas um marcador biológico, mas um preditor clínico relevante”, afirma Yihong Yang, pesquisador do NIH e autor sênior do estudo.

Um “relógio cerebral” da substância branca

A equipe desenvolveu modelos normativos de “idade cerebral” baseados em ressonância magnética por difusão (dMRI), técnica que permite mapear a microestrutura da substância branca — responsável pela comunicação entre diferentes regiões do cérebro.

Utilizando algoritmos de aprendizado de máquina, os cientistas estimaram a idade biológica dos tratos cerebrais e compararam esse valor com a idade cronológica de cada participante. A diferença entre ambas — chamada de brain age gap (BAG) — indica se o desenvolvimento do feixe está adiantado ou atrasado em relação ao esperado para aquela faixa etária.

Os modelos foram treinados inicialmente com dados do Lifespan Human Connectome Project Development (611 participantes) e depois validados em duas bases independentes: o Adolescent Brain Cognitive Development Study (8.688 jovens na linha de base) e o Healthy Brain Network (978 participantes).

Na validação cruzada, o modelo global de substância branca alcançou correlação de 0,855 entre idade real e idade prevista, com erro médio inferior a 2,3 anos — desempenho comparável ao de estudos anteriores de “idade cerebral”.

Tratos de substância branca relacionados à memória e emoção em bebês muito prematuros.

Dois eixos: cognição e psicopatologia

Por meio de análise estatística multivariada, os autores identificaram dois perfis principais de associação entre desenvolvimento cerebral e comportamento:

Modo de Associação (dorsal): relacionado a funções cognitivas superiores, como inteligência fluida e controle executivo.
Modo Subcortical/Límbico: associado a processamento emocional e sintomas afetivos.

Em ambos os casos, um BAG mais positivo (isto é, desenvolvimento mais avançado do que o esperado) esteve ligado a melhor desempenho cognitivo. Já BAGs negativos — indicando atraso na maturação — correlacionaram-se a mais sintomas psiquiátricos.

No caso dos tratos dorsais de associação, o padrão foi particularmente robusto: crianças com desenvolvimento mais lento nessas vias apresentaram maior número de diagnósticos psiquiátricos simultâneos e também maior risco de acumular diagnósticos dois anos depois.

“Cerca de 75% dos transtornos mentais começam antes dos 21 anos. Identificar marcadores precoces de risco é crucial”

Christopher J. Hammond, da Johns Hopkins University, coautor do estudo

Previsão de desempenho escolar

O efeito não se restringiu à saúde mental. O desenvolvimento mais avançado dos tratos de associação na linha de base previu melhor desempenho acadêmico dois a três anos depois, incluindo: notas escolares; desempenho em cálculo mental (SMARTE) e acurácia em tarefa de Stroop emocional.

Segundo os autores, os modelos baseados no BAG explicaram mais variação futura do que medidas tradicionais de integridade da substância branca (como a anisotropia fracionada isolada), sugerindo que a métrica capta um padrão mais amplo de maturação.

Conexões com redes cognitivas e metabolismo celular

Ao cruzar os resultados com mapas funcionais derivados do banco Neurosynth, os pesquisadores observaram que os tratos do “modo de associação” conectam regiões ligadas a redes de alto nível, como controle cognitivo e linguagem.

Além disso, os feixes mais implicados apresentaram maior densidade mitocondrial em análises pós-morte — um indício de maior demanda metabólica. Para os autores, isso pode indicar maior vulnerabilidade dessas vias durante o desenvolvimento.

“Os tratos de associação têm maturação mais prolongada e maior exigência energética. Isso pode torná-los particularmente sensíveis a fatores de risco durante a adolescência”, escrevem os pesquisadores.

Implicações clínicas

O estudo reforça a hipótese de que muitos transtornos psiquiátricos compartilham bases neurobiológicas comuns — o chamado modelo transdiagnóstico. Em vez de alterações específicas para cada diagnóstico, haveria dimensões compartilhadas de risco associadas ao desenvolvimento cerebral.

Os autores destacam que o uso de modelos normativos de desenvolvimento pode abrir caminho para estratégias de monitoramento individualizado, à semelhança de curvas de crescimento pediátrico.

Embora os resultados sejam robustos e replicados em diferentes bases de dados, os pesquisadores reconhecem limitações: a métrica de idade cerebral pode ser influenciada por fatores técnicos de imagem e ainda não está pronta para uso clínico individual.

Ainda assim, a mensagem central é clara: a trajetória de amadurecimento das conexões cerebrais na pré-adolescência pode oferecer uma janela privilegiada para compreender — e possivelmente antecipar — o desempenho cognitivo e o risco psiquiátrico ao longo da juventude.


Referência
Wang, D., Hammond, CJ, Salmeron, BJ et al. Desvio no desenvolvimento dos tratos de associação dorsal durante a pré-adolescência está relacionado ao desempenho cognitivo atual e futuro e à psicopatologia transdiagnóstica. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-69774-6

 

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